Piso 0

entrada: Condições Gerais

Natureza Morta/Stilleben

Susana de Sousa Dias

2010-12-02
2011-01-16

Baseada no filme de 2005 Natureza Morta – Visages d’une Dictature, a instalação Natureza Morta/Stilleben evoca um tema fundamental na história das artes visuais. A expressão alemã stilleben tem origem na palavra neerlandesa stilleven que significa vida ou existência imóvel e que, nas línguas latinas, corresponde ao paradoxal conceito de natureza-morta. A obra de Susana de Sousa Dias explora, precisamente, a fronteira ambígua entre essas duas realidades antagónicas, pondo em evidência o instante que separa a vida e a morte, a imobilidade e o movimento.

O trabalho resultou de uma extensa investigação sobre os documentos visuais dos 48 anos de ditadura em Portugal, reunindo fotografias de prisioneiros políticos, reportagens de guerra e documentários de propaganda, numa montagem que recupera rushes excluídos das versões finais exibidas na época. Conjugando a fotografia e o filme, a autora reduz a velocidade dos registos originais para aproximar a sequência cinematográfica da imagem parada. Ao suprimir o som dos filmes originais e recusar qualquer forma de narração ou legenda, Susana de Sousa Dias desconstrói e subverte as narrativas oficiais, revelando a contradição e a estranheza por detrás da produção iconográfica do regime.

Tal como as fotografias dos prisioneiros políticos, a peça desdobra-se em três imagens projectadas, formando um tríptico cuja espacialidade se completa com a instalação sonora de António de Sousa Dias. Não menos perturbadora que as imagens, a música surge aqui como possível fio condutor que potencia a reordenação de uma realidade fragmentada e a construção de outras narrativas pelo próprio observador. Natureza Morta propõe, assim, uma mudança de escala e de perspectiva, que desvia o observador da encenação de uma memória colectiva, para o centrar no território íntimo da individualidade, desfocando os gestos teatrais do poder para observar atenta e prolongadamente os gestos anónimos da sobrevivência quotidiana. Suspenso na lentidão das imagens e nas interpelações musicais, entre o terror e a empatia, o observador assiste a um desfile fantasmagórico de mortos-vivos e vivos-mortos, através de uma nação expectante, condicionada pela repressão e paralisada pelo medo, que nem mesmo a revolução, no final do filme, parece conseguir resgatar plenamente.

Representativa do percurso autoral de Susana de Sousa Dias em torno das memórias do Estado Novo, Natureza Morta/Stilleben é, seguramente, uma das suas obras mais poéticas e também mais inquietantes.

Helena Barranha


 

+ Info

Em Exibição

NOITES DE VERÃO 2019

Concertos às Sextas-feiras em Agosto

2019-08-02
2019-08-23
Curadoria: Filho Único
NOITES DE VERÃO 2019 concertos às Sextas-feiras em Julho no Jardim dos Coruchéus em Agosto no Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado pelas 19h30 e com entrada livre
Concertos

CAIS Urbana

Curadoria: Mistaker Maker
Exposição comemorativa dos 25 anos da Associação CAIS
Exposição temporária

Inês Norton.

Please [do not] touch

2019-06-28
2019-10-27
Curadoria: Adelaide Ginga e Emília Ferreira
Esta exposição de Inês Norton sublinha a necessidade de recuperar a plena consciência do corpo, sob pena de perdermos o essencial do que é ser humano
Exposição individual

Henrique Vieira Ribeiro. O Arquivista. Projeto CT1LN: parte II

2019-06-19
2019-09-15
Curadoria: Adelaide Ginga
Exposição interactiva que consiste na Parte II do Projecto CT1LN, um projecto artístico que teve por mote o espólio de um rádio amador. A segunda parte, que aqui se apresenta, deixa ao público a exploração do tema
Exposição individual

Rui Macedo. (In)dispensável ou a pintura que inquieta a colecção do museu

2019-05-14
2019-09-29
Curadoria: Emília Ferreira
Recordando-nos que um artista é um caçador-recolector, um respigador de sentidos, de formas, problemas e propostas, esta exposição relembra-nos que um museu é um local de constante e inquietante descoberta.
Exposição temporária

ARTE PORTUGUESA. RAZÕES E EMOÇÕES

2018-04-20
2019-10-27
Curadoria: Maria de Aires Silveira, Emília Tavares, Emília Ferreira
A presente exposição da coleção abrange grande parte do seu arco temporal, desde meados do século XIX até à década de 80 do século XX ocupando a totalidade das galerias da Ala da rua Serpa Pinto
Exposição da coleção