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entrada: Condições Gerais

A Perfect Day

Daniel Blaufuks

2005-09-09
2005-10-30

Estas são quatro linhas de um das centenas de postais que constituem o conjunto da obra. Os textos são “combinados” ou colidem com postais fotográficos que são igualmente arbitrários, mas sempre um cliché de frases bem conhecidas. Somos encorajados, à semelhança de Freud, a “redescobrir a verdade no mais banal” ou, guiados pelo desejo de Husserl e Wittgenstein, a voltar às coisas para procurar um melhor entendimento da mente e sua psique na experiência vivida do quotidiano e na linguagem comum.

O que poderia ser mais simples, claro e directo? O que poderia ser uma melhor máscara?

Daniel Blaufuks convida-nos a contemplar um vasto tecido sócio-cultural, que reflecte e dá forma às nossas relações com o ambiente, ao mesmo tempo que produzimos o tecido da nossa própria criação – uma representação de nós próprios. O mundo acaba sempre por ser visto e conhecido à luz da projecção que fazemos da nossa condição inter-subjectiva. Este desejo profundo de saber é perfeitamente escondido numa série de estratégias, através das quais se extrai da experiência mais banal uma descrição sobre como é viver na Terra, dizendo-nos exactamente o oposto, como não é.

A Perfect Day foi apresentado publicamente pela primeira vez na Location One Gallery, em Nova Iorque. Sessenta postais acompanhados de um filme. Este trabalho é baseado nos textos de George Perec intitulados “243 Cartes Postales en Couleurs Véritables” (243 Postais em Cores Reais), incluídos em L’Infra-Ordinaire. Com o tempo evoluiu para uma série de exposições e instalações, permitindo vários tipos de configurações. Em Coimbra tornou-se um projecto de arte pública – A Perfect Day (em Coimbra), em colaboração com o arquitecto João Mendes Ribeiro.

George Perec inspira Daniel Blaufuks não apenas no sentido estreito desta utilização de postais, mas no sentido epistemológico, isto é, Blaufuks partilha com Perec um entendimento da realidade como sendo, em última análise, insondável e infundada, daí a ligação às coisas da vida quotidiana como a única referência do nosso deturpado sentido do real. Perec, o autor de La vie; Mode d’Emploi, foi um dos fundadores de um grupo de escritores chamado OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle). Um acrónimo que representava a a assunção de que, de facto, toda a interacção humana é regulada por números. À semelhança da arte cabalista da Gemetria, que atribui valores numéricos às palavras hebraicas e as transcreve de acordo com o valor numérico das suas letras. Uma transformação deste tipo, juntamente com anagramas e outros mecanismos linguísticos, fornecia uma vasta tela na qual todos os enredos, descrições e prescrições para conceber um mundo melhor (ou apenas este mundo) podiam ser imaginados com grande certeza gramatical e numérica. Perec surgeao lado de Italo Calvino, Raymond Queneau, Marcel Benebou, Jacques Roubaud, entre outros, fundamentalmente conscientes do nosso desejo impossível de conhecermos as coisas e os lugares para nos conhecermos a nós próprios. Tal como a numerologia, que atraiu a atenção de alguns dos melhores escritores, pensadores e músicos na Viena do início dos anos 20. O uso do quadrado mágico para organizar uma composição não era desconhecido. “Quanto mais constrangimentos impomos, mais nos libertamos das correntes que agrilhoam o espírito” é uma das máximas do OuLiPo, que é como uma paródia às aulas de Webern numa casa privada entre Janeiro e Março de 1932. No final da última aula, Webern disse: “... À medida que desistimos gradualmente da tonalidade, surgiu-nos uma ideia: ‘Não queremos repetir, tem de haver constantemente algo novo!’ Obviamente isto não funciona; destrói a inteligibilidade. Pelo menos é impossível escrever longos trechos musicais dessa forma. Só depois da formulação da Lei dos Doze Tons se tornou possível escrever novamente peças mais longas. Queremos dizer ‘duma forma mesmo nova’ o que foi dito antes. Mas agora posso inventar de forma mais livre; tudo tem uma unidade mais profunda. Apenas agora é possível compor em livre fantasia, a nada aderindo a não ser a linha.Colocando-o de forma bastante paradoxal, apenas através destes constrangimentos sem precedentes se torna possível a liberdade total!” (The Path to the New Music, Universal Edition, Londres, 1993). No Doutor Fausto de Thomas Mann, o músico Leverkühn repetirá estas mesmas palavras.

Poucos artistas, se algum, adoptaram as estratégias criativas do OuLiPo até agora. A Perfect Day de Daniel Blaufuks é baseado na referência constante de Perec a uma vista apresentada de longe, transmitida por um desenho ou uma palavra e, depois, por correio, carta, postal, etc, apenas para ser novamente renunciada, os desenhos a aguarela serem transformados num quebra-cabeças e dissolvidos na água (La Vie; Mode d’Emploi). O mundo tranquilo dos postais (piscinas, praias, lagos de montanha e, acima de tudo, céus azuis) seleccionados pelo artista dão uma nova orientação à leitura. Daniel Blaufuks aplicou os seus prismas fotográficos noutros trabalhos como My Tangier com o escritor Paul Bowles. O seu Collected Short Stories depende igualmente de uma vasta constelação de literatura, arte e fotografia. Para retirarmos o total prazer da sua actuação sobre estas convenções que possibilitam e asseguram a estabilidade da produção genérica, temos de ter em conta estes axiomas da sua visão interior, os quais ele é simultaneamente impelido a suspender. Daniel Blaufuks é incansável na sua insistência na superfície imaculada da qual o olho inocente não suspeitará ou descobrirá qualquer razão para dúvida, mas onde o seu público não falhará em reconhecer águas duvidosas e traiçoeiras. Não longe da realidade duma história de Sherlock Holmes, os pormenores do dia-a-dia estão cheios de pistas para olhos iniciados e vulgares e pouco significativos para os leigos. De acordo com o mistério de Purloined Letter, uma das primeiras histórias policiais de Edgar Allan Poe, uma carta é escondida, mas onde? À superfície, sobre uma secretária aberta, escondida estando totalmente exposta. Não, as fotografias de Daniel Blaufuks nunca, nunca, nunca estão sobre/sub-expostas, ele insiste em manter as suas superfícies intactas e aí, na sua pele, está a sua profundidade. Removendo uma camada, descobrimos outra, igualmente misteriosa e igualmente resistente ao nosso questionamento. Parece que o único modo através do qual podemos atingir algum equilíbrio considerando a nossa incerteza é articulando as linhas ponteadas que criam e que têm necessidade constante de recriar estas frágeis pontes que assumimos terem sido construídas entre as nossas almas monadistas, mentes solipsistas, e o que lá está, Das Ding an Sich (a coisa em si mesma).

Lisboa deu-nos novamente a conhecer uma pessoa heterogénea. Num mundo de incerteza são necessárias muitas máscaras. Daniel Blaufuks fornece-nos novamente um dispositivo contra uma overdose de realidade. O impossível objecto de desejo torna-se o paradigma do paraíso nunca, nunca, nunca, nunca, nunca alcançável.

(1) Aqui estamos nós em St-Trop! / Tempo maravilhoso. / Estamos um grupo grande. Perfeito! / Abraço.

(2) Estamos no Hotel Beau-Rivage. / O tempo está óptimo. Vamos à praia. / Tenho jogado boules. / Tudo termina terça-feira. / Ai, ai.

Yehuda Safran
Escrito para www.anamnese.pt, sobre A Perfect Day (243 Postcards in Real Colour)

Yehuda Safran é critico e historiador e vive entre Nova Iorque e Paris. Membro do College International de Philosophie em Paris, leccionou em diversas instituições nao Europa e nos Estados Unidos e integra o corpo docente da Universidade de Columbia. Publicou artigos em revistas como 9H, Casabella, Domus, A+U, Daidalus e ArtPress.

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