MNAC

entrada: Condições Gerais

Picasso e o Mosqueteiro 1967-1972

1996-10-28
1997-02-01
Curadoria: Michèle Moutashar
Picasso no Museu do Chiado
Raquel Henriques da Silva



Vinte e quatro anos depois da morte de uma das figuras axiais da arte internacional do século XX, e 116 após o seu nascimento, pela primeira vez a sua pintura é objecto de uma exposição em Portugal, situação que creio inédita em relação a qualquer outro país europeu. Este facto traduz imediatamente a consabida distância da cultura artística portuguesa em relação aos grandes, médios e pequenos centros da elaboração da modernidade : ao contrário de todo eles, não tivemos nem política cultural, nem coleccionadores, nem museus e a consequência foi uma falha traumática que impediu gerações sucessivas de artistas e amadores do contacto directo com uma das mais impressivas revoluções do imaginário do século, consubstanciada no que vulgarmente se designa como arte moderna e que, evidentemente, não é devida só a Picasso mas a um conjunto de personalidades fundadoras, tingidas da mesma invisibilidade nacional.
Como sempre acontece, em qualquer domínio da História, a não vivência das suas diversas conjunturas não é mecanicamente transferível para os tempos seguintes. Por isso, não sendo possível corrigir uma centúria de resistência atávica à contemporaneidade, ela só interessa como consciência do não acontecido, mais ou menos contextualizável ou justificada, sobretudo, como sólida base decisória para finalmente romper com a teia da marginalidade auto-complacente. Existem, hoje, em diversas cenas da prática artística portuguesa, sinais optimistas de uma viragem produtiva e é nela que se inscreve a exposição que agora se apresenta.
Mas se a negatividade do passado não serve de argumento ao presente, importa atentar que as grandes exposições mundiais que, todos os anos, animam a vida cultural das cidades europeias - e não só das capitais - não se conquistam de repente, sem obras próprias para nelas integrar e sem possibilidade de se assumirem compromissos a longo prazo, sempre tremendamente onerosos em termos financeiros. Por isso, a atitude não é - não deve ser - mostrar tudo o que não vimos durante um século mas seleccionar, com indispensável pragmatismo, o que podemos fazer, sem comprometer, no caso dos museus, outras inadiáveis tarefas. Foi este posicionamento prudente - nem nem festivo nem fatalista - que esteve na origem de um projecto, nascido casualmente há dois anos. Vale a pena evocá-lo.
Por contacto inicial de Eduardo Prado Coelho, então Adido Cultural português em Paris. o Instituto Português de Museus e o Museu do Chiado co-produziram, em 1995, a exposição Marino Marini com o Museu Réattu de Arles comissariada da pela sua conservadora Michèle Moutashar. Com esta iniciativa pretendia-se iniciar uma linha desejável de colaborações internacionais na arte contemporânea, prevista para o Museu do Chiado desde o início da sua actividade.
Durante a preparação dessa exposição, em visita a Arles e ao seu belo Museu Réattu, a então directora do IPM, Simonetta Luz Afonso, e eu própria fomos atraídas pela sala dos desenhos de Picasso, para nós completamente inéditos, comoventes pela energia do traço, a diversidade da sua resolução técnica e a extrema unidade estilística do último período do genial pintor. Mais tarde, Jean-Maurice Roquette, que ainda desempenhava o cargo de Director dos Museus de Arles, contou-nos a história da entrada dessas 57 obras no Museu Réattu: elas haviam sido escolhidas pelo próprio Picasso que, em Maio de 1971, dois anos antes de falecer, quis homenagear o seu amor pela cidade de Arles, frequentada desde 1912, em pleno período clubista - como testemunham varias Arlésiennes, memoriais também a Van Gogh que aí vivera . E se consolidara ao longo de numerosas visitas, muitas vezes para assistir às touradas, realizadas no anfiteatro romano. Logo ali, manifestamos o desejo de, proximamente, poder mostrar aqueles desenhos no Museu do Chiado, dando continuidade a uma colaboração que se delineava frutuosa e adequada, considerando a dimensão física modesta dos dois museus.
Este projecto foi amadurecendo e Michèle Moutashar acabou por nos propor uma exposição que, tendo como núcleo significante, parte da colecção dos desenhos picassianos de Arles, não se esgotava neles mas elegia de imediato o tema do Mosqueteiro, determinado, poder-se-á dizer pelo proprio artista. De facto, era essa figura versátil, imediatamente identificada pelo chapéu e o bigode cavaleirescos, que sobressaia da selecção por ele feita, como se fossse uma espécie de auto-retrato insistente e diferido, plasmado pela revisitação de Rembrandt, Velasquez (ou da Silva, como Picasso o designa no Mosqueteiro do Museu de Budapeste) e El Greco, pintores que Picasso longamente prosseguiu na sua programática, tão séria como irreverente, de refazer a arte europeia da idade de ouro do império espanhol.
Partindo pois da série mais expressiva e unitária do núcleo de obras do Museu Réattu - balizado pelas datas de 31 de Dezembro de 1970 e 4 de Fevereiro de 1971 - Michele Moutashar decidiu contextualizá-la, na produção pictórica e na gravura, para provar que o tema do Mosqueteiro constitui um dos motivos maiores do Picasso final onde 80 anos de pasmosa e ininterrupta criatividade se concentram e eclodem, simultaneamente como liberdade e assumpção de destino auto­-construído. Creio que, na extensa bibliografia do pintor, é a primeira vez que tal é feito e este facto será o mérito maior desta exposição que, positivamente, torneou a impossibilidade que haveria, para um pequeno Museu como é o do Chiado, de apresentar as obras ou os períodos mais consagrados do artista.
Na verdade, não vale a pena iludir a extrema dificuldade de um museu, que não possui obras de reconhecimento internacional e se situa num espaço periférico em relação aos grandes e pequenos centros da prática artística europeia, de organizar uma exposição Picasso. No contexto da herança histórica, delineada no início deste texto, esta exposição não se propõe preencher a figura do pintor, o que só poderia acontecer com uma retrospectiva histórica, cuja importância, ou urgência, não é discutível - como, aliás, a de outros percursos inventores da modernidade - mas cuja responsabilidade terá de ser assumida por instituições com um perfil mais adequado do que o do actual Museu do Chiado.
E se não foi naturalmente possível obter todas as obras que a comissária da exposição gostaria de apresentar, este projecto contou com a simpatia e a disponibilidade de prestigiados museus, galerias e coleccionadores, receptivos pela situação de em Lisboa nunca se ter realizado uma exposição de pintura Picasso que, pelo esplendor da obra e a intensa aura de personagem, e, ainda hoje, uma espécie de símbolo familiar do espírito fundador da vivência e dos valores novecentistas. Além do grande profissionalismo e sensibilidade de Michele Moutashar, contámos também com o mecenato generos do Banco Mello, Mecenas institucional do Museu do Chiado desde 1995, da Bolsa de Lisboa, da TMN e das companhias de
.1seguros Lusitânia, Tranquilidade, Império e Mundial Confiança. A todos agradeço, bem como a colaboração inexcedível do Instituto Português de Museus que nos apoiou na produção complexa desta exposição, na sua montagem e realização do catálogo, particularmente a Dra. Mana Antonia Pinto de Matos que viabilizou este projecto.
Foi esta vasta equipa de trabalho e boas-vontades, que nos permite celebrar o 116º aniversário de Picasso, evocando-o no esplendor os anos finais, através de um dos auto-retratos com que se identificou com a pintura. No Mosqueteiro, a espada torna-se cachimbo, o cachimbo é sempre o  pincel e o chapéu, o fato e o bigode de cavaleiro seiscentista constituem a metáfora poderosa das memórias museais com que ele  contestou e renovou os próprios conceitos de obra e de  museu .Sobre o pano de fundo da mítica figura da espanholidade que lhe foi sempre raivoso e apaixonado chão.

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